Casos e casos - Resenha crítica - Esther Perel
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Casos e casos - resenha crítica

Sexo & Relacionamentos

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 978-0-06-232260-9

Editora: HarperCollins

Resenha crítica

Casos e casos: Repensando a infidelidade

Você sente um aperto no peito ao imaginar a cena: um casamento de quinze anos, com filhos, viagens, casa quitada, risadas reais no jantar de domingo. E, de repente, um celular esquecido sobre a mesa muda tudo. Não é raro. É quase rotina. A psicoterapeuta belga Esther Perel passou quase trinta anos ouvindo histórias assim em seu consultório, em três continentes, em seis idiomas.

O que ela descobriu incomoda. A traição não acontece só em lares infelizes. Acontece em casais que se amam. Acontece com pessoas boas, gentis, fiéis em quase tudo o resto. E a forma como reagimos, em geral, piora a ferida em vez de curá-la. Pulamos para o divórcio como quem prova ter dignidade. Tratamos quem traiu como monstro e quem foi traído como vítima sem nuance.

Este microbook propõe outra rota. Não para justificar o ato. Para entender o que ele revela. Sobre desejo, identidade, tédio, medo, perda. E para mostrar como alguns casais não só sobrevivem à crise como reconstroem algo mais vivo do que tinham antes.

A anatomia da quebra de confiança na era digital.

A infidelidade é o único tabu universal que segue sendo universalmente praticado. Toda cultura condena. Quase toda cultura pratica. E a reação automática hoje é binária: traiu, acabou. Esther Perel propõe outra coisa. Ela chama de abordagem both/and, ambas as coisas. Dá para acolher a dor de quem foi traído e, ao mesmo tempo, investigar o que levou o outro até ali. Sem julgamento raso. Sem o troféu fácil do divórcio como prova de autorrespeito.

Ela conta o caso de Benjamin, cujo a esposa tem Alzheimer avançado e não o reconhece mais. Ele construiu uma segunda relação afetiva. Você o chamaria de adúltero? Perel desmonta a resposta automática mostrando que cada história tem camadas. E aponta três elementos que definem a traição contemporânea: segredo, alquimia sexual e envolvimento emocional. Nem todos precisam estar presentes. Um affair pode ser só conversas no WhatsApp, curtidas insistentes, mensagens apagadas.

O mundo digital borrou os limites. Casais quase nunca conversam sobre o que conta como traição. Aí, quando a fronteira invisível é cruzada, a frase mais honesta que cabe é a que Perel oferece em terapia: o seu primeiro casamento acabou, gostariam de criar um segundo juntos?

O esmagador peso do consumismo romântico.

Antigamente, casamento era contrato econômico. Você se unia para sobreviver, ter filhos, herdar terras. Paixão era luxo, e em geral acontecia fora. A infidelidade era o refúgio do amor. Hoje invertemos tudo. O cônjuge moderno precisa ser amante ardente, melhor amigo, sócio financeiro, copiloto espiritual e terapeuta de plantão.

Perel chama isso de modelo capstone substituindo o modelo cornerstone. Antes o casamento era a pedra fundamental, o início da vida adulta. Agora é a pedra de coroação, a última conquista, depois da carreira, do apartamento, da viagem dos sonhos. E a régua só sobe. Some-se a isso o consumismo romântico e o medo de perder algo melhor, o famoso FOMO. Aplicativos sugerem que existe alguém mais compatível a um deslize de polegar.

O resultado é uma expectativa sobre-humana. Quando o parceiro falha em entregar tudo ao mesmo tempo, a ferida não é só prática. É identitária. Você não foi só traído. Foi desvalidado. E é por isso que dói tanto.

O roubo da memória e os amplificadores da dor.

Descobrir uma traição produz respostas idênticas às do trauma. Insônia, ruminação, pânico, dissociação. Perel descreve como a vítima sente que perdeu a própria memória. A frase que ela usa é precisa: a traição fratura a história de vida. Aquela viagem a Paris em 2018 ainda foi real? Aquele aniversário de dez anos? A pessoa traída revisita cada cena duvidando do que viveu.

Some-se a isso o que ela chama de amplificadores de dor, os magnifiers. Não é o ato em si que mede a gravidade, é o contexto. Trair durante a gravidez. Trair durante o luto da sogra. E o caso clássico do melhor amigo: quando o terceiro é alguém da rede íntima, o casal perde também a comunidade. Filhos ouvem cochichos na escola. Sogros tomam partido. Amizades de uma década evaporam num grupo de WhatsApp.

Para qualquer reparação possível, quem traiu precisa carregar o que Perel chama de transferência de vigilância. Por meses, é o trair que avisa onde está, mostra a agenda, antecipa as inseguranças. Não por punição. Por empatia ativa.

Por que o ciúme pode reacender o desejo.

Aqui Perel resgata uma emoção que o terapeutês moderno tenta abafar. O ciúme. Culturas anglo-saxônicas o tratam como sinal de imaturidade. Culturas latinas o chamam de fúria erótica. Perel fica com os latinos. Ciúme não é fraqueza. É a prova de que há valor em jogo, de que aquele vínculo importa, de que perder doeria.

E vem o ponto mais incômodo do livro. As imagens intrusivas que torturam quem foi traído, aquelas cenas mentais do parceiro nos braços do amante, costumam carregar uma carga afrodisíaca paradoxal. O outro, que era familiar demais, vira de novo um estranho desejável. Alguém o quis. Alguém o disputou. O Eros adormecido pelo hábito acorda porque a competição reintroduziu incerteza. Casais que conseguem suportar essa imagem em vez de varrê-la, segundo Perel, com frequência reencontram um desejo que tinham dado como morto.

Patologizar o ciúme à força, tentar fingir que o amante foi nada, fecha a porta para essa energia. O ciúme bem manejado não destrói. Ele lembra que ninguém pertence totalmente a ninguém. E que isso, contraintuitivamente, é erótico.

Entre o autoflagelo e a vingança.

A lâmina da traição corta dos dois lados. Quem foi traído oscila violentamente entre dois pólos. De um lado, o autoflagelo: não fui suficiente, engordei, fiquei chato, deixei a relação morrer. Do outro, a fantasia de retaliação: contar para os pais dele, postar no Facebook, dormir com o vizinho na mesma cama, processar.

Perel diz que vingança concreta quase nunca cura. Prolonga o trauma e contamina filhos, trabalho, reputação. Mas a fantasia de vingança serve. Ela recomenda uma prática específica em terapia: diários com fantasias agressivas com tempo limitado. Vinte minutos por dia, durante algumas semanas, escrever sem censura tudo o que se gostaria de fazer. Depois fechar o caderno. A catarse acontece no papel, não na vida.

E há uma distinção que ela martela. Aceitar responsabilidade pela dinâmica do casamento que precedeu o affair é diferente de aceitar a culpa pelo ato. A dinâmica é compartilhada. O ato foi escolha de uma pessoa só. Confundir isso prende a vítima num autoflagelo que não tem fim.

Contar tudo é mesmo o melhor caminho.

A moral ocidental venera transparência total. Conte tudo, pergunte tudo, exija tudo. Perel discorda. Não porque ame o segredo, mas porque viu na prática como interrogatórios fáticos destroem o que tentavam salvar.

Ela ensina os casais a distinguir dois tipos de pergunta. Há as questões de detetive: quantas vezes, em que posições, onde, qual hotel, qual perfume. Essas alimentam imagens que torturam por anos sem entregar entendimento. E há as perguntas investigativas: o que você sentiu que não conseguia sentir comigo? Que parte sua reapareceu naquele encontro? O que isso me diz sobre o que estamos vivendo? Essas abrem o casamento para uma conversa real.

E a vigilância digital? Aquela ideia de exigir senhas, ler todas as mensagens, instalar rastreador no celular? Perel é direta. É falsa esperança de segurança via senhas. Funciona por algumas semanas e depois corrói a confiança ainda mais, porque sinaliza que ela nunca voltará. Reconstrução não nasce de vigilância. Nasce de curiosidade renovada.

Por que pessoas felizes também traem.

A teoria mais confortável é a do sintoma patológico. Se traiu, é porque o casamento estava ruim. Perel diz que essa narrativa explica menos da metade dos casos que viu. Pessoas em casamentos amorosos, sexualmente ativos, com parceiros presentes, também traem. E o motivo costuma estar dentro delas, não no outro.

Ela fala de nostalgia de vidas não vividas. A executiva que sempre foi a filha responsável, a esposa devotada, a mãe impecável, encontra num affair a versão de si que existiu aos vinte anos e foi engavetada. Não está fugindo do marido. Está procurando aquela mulher que ria mais alto. A infidelidade vira o combate de Eros contra Thanatos, vida contra entorpecimento, vitalidade contra rotina.

Perel dedica páginas ao silêncio erótico das mães. Mulheres que passam o dia traduzindo necessidades alheias, calculando lancheiras, marcando consultas pediátricas. À noite, não sobra desejo. Um affair, para algumas, é o único espaço onde ninguém precisa delas como cuidadoras. Onde voltam a ser desejadas como mulheres, não como funções.

A hierarquia cega das traições matrimoniais.

Nossa cultura elege a traição sexual como o crime conjugal supremo. Perel pergunta: e o resto? Décadas de desprezo, controle financeiro, indiferença gélida, gritos diários, recusa total de toque. Tudo isso convive em milhões de casamentos sem escândalo público, enquanto um beijo extraconjugal vira motivo de divórcio imediato.

Ela analisa com cuidado o sexo pago masculino. Não é só tesão bruto. Muitos homens que pagam por sexo carregam a divisão amor-luxúria, o love-lust split. Amam as esposas como figuras familiares, quase fraternas, e não conseguem dirigir a elas a agressividade carnal. São meninos bondosos infantilizados pela relação. Buscam profissionais não por desejo da outra, mas para não desapontar a esposa-mãe.

E há os casos de celibato compulsório imposto, parceiros que recusam sexo por anos a fio e ainda exigem exclusividade. Perel não defende a traição nesses contextos. Apenas se recusa a fingir que o sadismo conjugal cotidiano é menos grave do que o deslize adúltero. A contabilidade moral precisa ser mais honesta.

O limbo cruel das terceiras pessoas.

Há uma figura que terapia e cultura tratam como descartável. A outra. O outro. O amante. Perel devolve humanidade a essa posição. Não para legitimar o affair, mas para mostrar que apagar essa pessoa do mapa moral é covardia analítica.

Muitas amantes vivem o que ela chama de ambiguidade estável. Anos sustentando uma relação à base de promessas que nunca chegam. Aniversários sozinhas. Feriados invisíveis. Acreditando, a cada conversa, que dessa vez ele vai se separar. Quando a traição é descoberta, o conselho terapêutico padrão é brutal: ghosting absoluto, sumiço total, como se o vínculo nunca tivesse existido.

Perel critica esse conselho. Não porque o casal traído não mereça prioridade. Mas porque tratar uma pessoa real como nunca tendo existido nega a complexidade do que houve. Existe vida ali. Existe luto ali. E negá-lo é mais uma forma silenciosa de violência que ninguém quer ver.

Redesenhando horizontes do fim digno ao poliamor.

Quando a poeira baixa, três perfis aparecem. Perel os nomeia. Os Sofredores, presos para sempre na ruminação, transformam a traição em identidade permanente. Os Construtores, que voltam ao status quo seguro mas frágil, fingindo que nada mudou. E os Exploradores, que usam a queda como matéria-prima para reconfigurar a intimidade do zero.

Alguns casais chegam à não-monogamia consensual. Não como liberação geral, mas como reescritura ativa do contrato. Perel observa que mesmo em arranjos abertos as transgressões acontecem, porque o impulso humano não é apenas pelo sexo extra, é pela rebeldia contra qualquer limite. Mas a transparência negociada substitui o segredo vergonhoso por diálogo estrutural.

Quando o casamento não tem como seguir, há o ritual do desacoplamento consciente. Um encerramento cerimonial onde ambos reconhecem o que foi bom, nomeiam o que morreu, e seguem com dignidade em vez de tribunal. É o oposto do divórcio-troféu.

O que sobra quando a poeira baixa.

Aceitar que segurança total mata o erotismo muda tudo. Seu parceiro nunca foi totalmente seu, e essa incerteza pode ser combustível em vez de ameaça. Trocar julgamento por curiosidade investigativa é o que extrai sentido dos escombros. Vínculos blindados não são os intocados. São os que negociam o desejo de olhos abertos.

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Quem escreveu o livro?

Esther Perel é reconhecida como uma das vozes originais e perspicazes maioria do mundo em relações pessoais e profissionais. Ela é a autora best-seller de acasalamento em cativeiro Desbloqueio Erótico Inteligência, traduzido em 25 idiomas. Fluente em nove deles, o nativo belga é um psicoterapeuta, comemorou palestrante e consultor organizacional para empresas da Fortune 500. The New York Times, em uma reportagem de capa, nomeou a mudar o jogo mais importante sobre sexualidade e relacionamentos desde que o Dr. Ruth. Seu aclamado pela crítica viral TED talk chegou a quase 5 milhões de espectadores no primeiro year.Known para seu pulso cross-cultural afiado, Esther muda o paradigma da nossa abordagem para relacionamentos modernos. Ela é regularmente procurado em todo o mundo por sua especialização em inteligência erótica, casais e identidade familiar, bem como as relações empresariais e equipe clientes collaboration.Her e plataformas incluem empresas como a Nike, Johnson & amp; Johnson e Mopar, o Instituto Open Society, To... (Leia mais)

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